Na política, o favoritismo é um cristal valioso, mas extremamente frágil. Ao longo da minha carreira, acompanhei de perto episódios que mudaram o destino de Pernambuco nos bastidores e nas ruas. Vivi intensamente (na equipe do guia do rádio com o saudoso, Edvaldo Moraes) dois casos mais emblemáticos de como o "salto alto" e o erro de cálculo podem destruir uma eleição ganha: o de Roberto Magalhães em Boa Viagem e o de Cadoca no Pina. Hoje, vejo um novo ingrediente nesse caldeirão: o caso do "trancelim" de João Campos.
A "Banana" que eu vi de perto
No ano 2000, Roberto Magalhães caminhava para uma vitória tranquila no primeiro turno. Eu estava lá e vi como a atmosfera mudou após aquele fatídico gesto na Praia de Boa Viagem. Ao dar uma "banana" para militantes de esquerda no calçadão, Magalhães não apenas rebateu uma provocação; ele entregou o ouro aos adversários. A imagem, capturada na véspera do primeiro turno, foi o combustível que levou João Paulo ao segundo turno e, eventualmente, à vitória. O eleitor não perdoou o que foi lido como soberba. Os marketeiros naquela época se deliciavam com com esses "erros crassos" que custavam a virada de uma campanha perdida.
O Escândalo de Cadoca no Pina
Outro momento que presenciei e que serve de alerta máximo foi a derrocada de Cadoca. A tentativa de usar Maria do Socorro, no Pina, para atacar João Paulo e Lula no guia eleitoral, transformou-se em um dos maiores desastres de marketing da nossa história. Quando o programa de João Paulo revelou que a mulher teria recebido dinheiro para fazer as acusações, a candidatura de Cadoca - que também liderava - implodiu. A palavra "propina" grudou na campanha como chiclete, explorada nos programas eleitorais do rádioe da TV, e a recuperação foi impossível.
João Campos, o Trancelim e a Lente do Guia Eleitoral
Agora, o assunto é a corrente de ouro - o trancelim - que o prefeito João Campos retirou antes de entrar em uma comunidade. Pode parecer um gesto preventivo simples, mas na arena política, a forma é o conteúdo. Se esse vídeo for explorado com inteligência no guia eleitoral, o dano pode ser profundo.A oposição tem em mãos um material que permite construir uma narrativa perigosa: a de que o prefeito teme ou desconfia do povo que o elegeu. No marketing político, uma imagem editada com a trilha sonora certa e o depoimento correto de um morador daquela mesma comunidade pode transformar um cuidado pessoal em um ato de distanciamento social e preconceito.
A história nos ensina - e eu sou testemunha disso - que eleições não se vencem antes da apuração. A banana de Magalhães e o caso de Cadoca mostram que o eleitor recifense reage com vigor a gestos que soam como desprezo ou falta de autenticidade. O episódio da correntinha de João Campos é o tipo de "trunfo" que, se bem utilizado pelos adversários no rádio e na TV, pode tirar o sono de quem hoje dorme na liderança.
A Conexão Brasília Pernambuco quer saber: com a repercussao enorme que ganhou o caso do "trancelim", os marketeiros da situação saberão explorar essa gafe do candidato da oposição?

0 Comentários