A herança de Victor e a conveniência de João Campos



A política, como sempre digo, é a arte de escolher o que mostrar e o que esconder. Na sucessão municipal do Recife, o roteiro que se desenha com a saída de João Campos para disputar o Governo do Estado é um misto de marketing de vitrine e uma engenharia financeira que pode custar caro ao seu sucessor, Victor Marques.

O Presente de Grego para Victor

A pompa da transmissão de cargo esconde um cenário contábil preocupante. Nos bastidores da PCR, o comentário é um só: o "caixa azul" da propaganda está, na verdade, no vermelho. Victor Marques assume não apenas a cadeira, mas a missão ingrata de gerir um rombo que já força a prefeitura a buscar manobras desesperadas, como a securitização (empréstimo para pagar o que está devendo) de R$ 500 milhões em dívidas ativas. É a política do "faça agora e pague depois". João sai para a campanha com as fotos das obras no Instagram, enquanto Victor fica com a calculadora na mão, tentando equilibrar as contas com fornecedores e o aumento explosivo de gastos com terceirizados, que saltou quase 70% em sua gestão.

A Amnésia Seletiva: Cadê os Padrinhos?

Outro ponto que chama a atenção nesse início de campanha pé na estrada é a "higienização" da biografia política de João Campos. Ele tenta se vender como um fenômeno autônomo, mas parece ter esquecido quem lhe deu a mão. Onde estão Paulo Câmara e Geraldo Júlio? João foi chefe de gabinete de Paulo e teve sua eleição de 2020 viabilizada pela máquina de Geraldo. No entanto, na hora de pedir votos para o Estado, esses nomes são guardados no fundo do armário. É o pragmatismo da conveniência: usa-se o padrinho para subir o degrau, mas esconde-se o criador para não carregar a rejeição e os escândalos que eles deixaram. João quer o DNA de Eduardo, mas renega o sobrenome político de quem o carregou no colo até aqui.

O Espelho da História: Jarbas e Magalhães

Para quem acha que "sempre foi assim", a história desmente. Quando olhamos para o passado recente de prefeitos que saíram do prédio da Prefeitura do Recife para o Palácio, o contraste é gritante. Jarbas Vasconcelos, em 96, entregou a Roberto Magalhães uma prefeitura saneada, com capacidade de investimento e uma sucessão tranquila baseada em resultados reais, não em antecipação de receitas. O próprio Roberto Magalhães, em 86, saiu deixando a casa em ordem, sem "balões de oxigênio" financeiros para o sucessor.

Diferente dos seus antecessores vitoriosos, João Campos parece estar deixando uma fatura alta. Se Jarbas e Magalhães pavimentaram o caminho com gestão, João parece estar pavimentando com empréstimos. Victor Marques, o "prefeito por acaso", terá que provar se é um gestor ou um simples pagador de dívidas de uma campanha que já começou.

A Conexão Brasília Pernambuco quer saber: Quem vai acreditar no êxito administrativo de um governador que quebrou a prefeitura que administrou?

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