O som do crime no gravador do rádio: o dia em que fui o único a ouvir o assassino do deputado Édson Queiroz (Dr. Fritz)


O jornalismo de rádio em Pernambuco é feito de técnica, mas, acima de tudo, de instinto e de "estar no lugar certo". Em um sábado à tarde, no dia 5 de outubro de 1991, o que deveria ser apenas o encerramento de mais um expediente na unidade volante da Rádio Globo Recife, transformou-se no furo de reportagem mais dramático da minha carreira.


Tudo começou com uma provocação do meu colega e mestre Marcos Araújo - voz icônica da TV Globo e professor da UNICAP - que do estúdio na rua Floriano Peixoto, lançou o desafio pelo rádio de comunicação móvel : "Adriano, antes de voltar à base, dá uma passadinha rápida lá no Hospital da Restauração só para ver se tem alguma coisa". Aquele "só para ver" mudaria o rumo da cobertura jornalística do estado naquela década.


O Cerco no Hospital da Restauração


Ao chegar ao HR, a maior unidade de traumas da região, deparei-me com uma cena que o tempo não apaga: José Ricardo da Silva, o ex-caseiro que acabara de desferir os golpes fatais contra o deputado estadual e médium Édson Cavalcante Queiroz, estava saindo sob escolta policial. Ali eu vi apenas mais uma pessoa que havia desferido facadas em uma vítima qualquer.


A notícia ainda estava "quente", as redações ainda tentavam entender o que havia acontecido na residência do parlamentar, Édson Cavalcante Queiroz, o Dr. Fritz. Enquanto o fluxo da imprensa se deslocava para o local do crime ou para o Hospital Memorial, onde o deputado foi socorrido, eu estava no ponto zero da custódia do criminoso. Com o gravador em punho e a adrenalina a mil, consegui o que todos os veículos de comunicação desejavam: a primeira e única voz do homem que interrompera a trajetória de uma das figuras mais emblemáticas e místicas de Pernambuco.


"Doutor, ele me xingou...": O Peso da Honra no Interior


O que ouvi não foi a voz de um criminoso frio de cinema, mas a de um senhor simples, com aquele sotaque do interior profundo e uma "vozinha" mansa de gente humilde, que me chamava de "doutor" enquanto tentava justificar o injustificável.


"Ah, doutor, ele me xingou... ele falou coisa que não devia para mim, doutor. Ele falou umas coisas muito ruins, eu não aguentei".


Naquele depoimento exclusivo, ficou claro que o crime não era apenas sobre uma dívida trabalhista de pequeno valor. Era sobre o choque cultural entre o poder e a honra ferida de quem pouco tinha, mas que não aceitava ser humilhado. Foi uma confissão direta e assustadoramente real, capturada entre os corredores do hospital e a viatura que o levaria embora, antes mesmo de ele chegar à delegacia.


O Gravadorzinho que Pautou a imprensa de Pernambuco


A minha folga, claro, acabou ali. Ao chegar ao Hospital Memorial, encontrei uma cena de guerra: dezenas de repórteres de TVs, rádios e jornais impressos. Todos buscavam o "porquê", mas ninguém tinha conseguido falar com o assassino.


Foi ali, em um gesto de humildade e camaradagem que marcava a nossa "época de ouro" do rádio AM, que abri o som do meu gravador para os colegas. Naquele sábado, o som que ecoou nos telejornais da noite e nas manchetes do Diário de Pernambuco e do Jornal do Commercio no dia seguinte, nasceu da exclusividade da unidade volante da Rádio Globo.


O Legado da Notícia Viva


Hoje, as fitas magnéticas podem ter se desgastado e os arquivos das antigas emissoras podem ter sumido no tempo, mas a memória de quem segurou o microfone permanece intacta. Esse episódio me ensinou que o grande furo não nasce apenas da sorte, mas da disposição de atender o comandante do estúdio e dar aquele último passo antes de ir para casa.


Contar essa história no meu blog é um tributo ao rádio raiz, que com agilidade e presença física, foi - e continua sendo - a testemunha ocular da história de Pernambuco.

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