Quem vive o dia a dia do jornalismo sabe que as melhores histórias acontecem quando o gravador está desligado. Hoje, decidi resgatar uma memória muito especial da minha trajetória na Rádio Cidade 95,9, envolvendo ninguém menos que o Rei, Roberto Carlos. Os anos era os 90, não da pra lembrar exatamente pois o rei todo ano estava aqui na capital pernambucana.
Tudo começou com um imprevisto. Roberto tinha um show programado para Recife, mas a data precisou ser adiada. Ele acabou se apresentando primeiro em João Pessoa. Naquela época, conseguir uma gravação exclusiva com ele para anunciar uma nova data era quase impossível - o Rei raramente gravava convites personalizados para praças específicas. Mas a rádio tinha a melhor produtora, que atendia pelo nome de Kika e não recusava desavios!
A direção da rádio me deu a missão. Aqui vale a pena ressaltar que até hoje, eu não conheço empresários de comunicação que tenham mais visão e competência para gerir empresas da área, como Isabel Cristina e Ricardo Pinto. Ambos conseguem sucesso nos empreendimentos até hoje. Pois bem, naquele dia a missão de Cristina era: “Vá a João Pessoa e traga a voz do homem".
O Mal-entendido de "Milhões”
Peguei minha Brasília toda estilosa da Rádio e cheguei de noite ao Centro de Convenções na capital paraibana e a espera foi longa. Roberto é conhecido pelo seu perfeccionismo e pelo tempo dedicado aos seus rituais antes do show. Para tentar agilizar o contato com a empresária dele, usei um argumento que acabou gerando uma confusão generosa. Eu disse a ela: "Olha, eu preciso muito que ele me atenda logo, porque amanhã cedo eu tenho vestibular".
Na minha cabeça de radialista, era óbvio: eu me referia à cobertura do vestibular que a rádio faria em Recife, uma das maiores operações de logística da nossa equipe, começando às 6h da manhã. Mas para quem ouviu, pareceu que eu era um jovem estudante prestes a prestar o exame da minha vida!
A Generosidade do Rei
Quando finalmente fui recebido, Roberto foi de uma fidalguia impressionante. Gravou o aviso para os ouvintes da Rádio Cidade, tranquilizando os fãs de Recife sobre a nova data. Mas o que me surpreendeu veio depois. Sabendo do meu compromisso "estudantil" na manhã seguinte e vendo a hora avançada, Roberto Carlos, com toda a sua tranquilidade, virou-se para mim e ofereceu:
"Bicho, se você está com tanta pressa para não perder o seu vestibular, volta no meu avião que vai abastecer agora em Recife. Ele te deixa lá."
Tremi e acelerei o coração mas lembrei da Brasília estacionada na frente do local do evento e agradeci imensamente o gesto - que não era para qualquer um. Meu lado sincero falou mais alto e expliquei que o meu "vestibular" era, na verdade, do outro lado do microfone, narrando a chegada dos candidatos.
Memória Viva
Acabei voltando por terra mesmo, a tempo de cumprir o plantão, mas guardei comigo, na memória, e deve estar nos arquivos de Ricardo e Cristina, aquela gravação histórica e a prova de que, além de ídolo, o Rei é um mestre na arte de tratar bem quem está no trecho. Histórias como essa mostram por que o rádio é tão mágico: ele nos coloca cara a cara com lendas, em situações que nem o melhor roteiro de cinema poderia prever.
0 Comentários