O vídeo gravado pelo presidente Lula em apoio à candidatura de João Campos à reeleição no Recife trouxe, novamente, à baila a expressão "compromisso histórico" entre PT e PSB. Para quem observa a política pernambucana da arquibancada do tempo e das coberturas jornalísticas, o termo soa, no mínimo, como uma licença poética ou, para ser mais direto, como um compromisso na prática furado.
A narrativa de uma união indestrutível entre as duas legendas não resiste ao teste da crônica política estadual. Se olharmos pelo retrovisor, o que encontramos é uma sucessão de rupturas que provam que o "compromisso" é, na verdade, uma peça de conveniência, moldada pelo pragmatismo de ocasião e não por uma pedra fundamental ideológica.
Não nos esqueçamos que o tal compromisso não impediu que Miguel Arraes - figura que o próprio Lula tanto reverencia - sofresse a maior derrota de sua trajetória política em Pernambuco, justamente para Jarbas Vasconcelos, por uma margem superior a 1 milhão de votos. Em 1998 foi praticamente ignorado pelo PT. Na época, militantes petistas diziam não ver em Arraes uma identidade com as lutas do partido.
Tampouco esse elo histórico freou o movimento de Eduardo Campos, que, em 2014, rompeu com o projeto petista de Lula e Dilma para lançar sua própria candidatura à Presidência, rompimento este que só foi interrompido pela tragédia que nos tirou o ex-governador.
Nem mesmo Paulo Câmara, em 2018, sentiu o peso desse "histórico" ao decidir, de forma pragmática, retirar o apoio à candidatura da petista, Dilma Rousseff, para caminhar em direção a Aécio Neves.
Para o eleitor pernambucano, que guarda na memória o peso dessas decisões, o discurso de Lula parece ecoar em um vazio. O cidadão sabe, por experiência própria, que a política em Pernambuco tem lógica própria e que as siglas, muitas vezes, servem apenas de fachada para um projeto de poder que prioriza o local sobre o nacional.
Diante disso, como fica o tabuleiro de Raquel Lyra? A governadora, até aqui, tem sido cautelosa. Ao ouvir de Lula que o apoio ao PSB é um "compromisso histórico", a mensagem subliminar é clara: a neutralidade de outrora tornou-se artigo de luxo. A resposta de Raquel - de que "Pernambuco não tem dono" - é um sinal de que ela percebeu que o terreno mudou.
É provável que a governadora mantenha a prudência nos próximos dias, mas os bastidores indicam que a aliança que sustenta o seu governo não passará incólume por esse movimento. Ajustes são necessários. Raquel sabe que, ao enfrentar a máquina lulista, não pode se dar ao luxo de ter um exército desmobilizado.
O "compromisso histórico" de que fala o presidente é, hoje, muito mais uma tentativa de forçar uma unidade que nunca foi real do que o retrato de uma aliança sólida. Resta saber se o eleitor, sempre atento e pouco afeito a imposições de Brasília, comprará essa narrativa ou se, como em tantos outros momentos da nossa história, seguirá o seu próprio caminho.
A Conexão Brasília Pernambuco quer saber:
Será que o vídeo de Lula mudaria o cenário decrescente nas intenções de voto do ex-prefeito João Campos ou a governadora vai manter a dianteira e o crescimento?

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