Blog do Adriano Roberto

Moraes, João Campos e a eleição de Pernambuco: quando a crise de Brasília chega em PE



A política brasileira entrou numa daquelas semanas em que Brasília parece pequena demais para tanta crise. Alexandre de Moraes voltou ao centro do furacão. E, desta vez, não apenas pelas decisões do Supremo Tribunal Federal ou pelas antigas controvérsias envolvendo liberdade de expressão, redes sociais e os chamados inquéritos das fake news.

O novo capítulo envolve as vastas mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Os documentos revelados nos últimos dias registram contatos entre Vorcaro e Moraes e levantam questionamentos sobre relações envolvendo o banco e o escritório da esposa do ministro. A PGR, entretanto, pediu a nulidade do relatório, alegando irregularidades na origem da investigação.Mas o assunto está longe de ser encerrado.

Pernambuco, embora geograficamente distante de Brasília, não está politicamente tão distante assim. Basta lembrar uma fotografia que ganhou enorme repercussão neste ano: Alexandre de Moraes foi um dos convidados do casamento de João Campos e Tabata Amaral, realizado na Praia dos Carneiros. Ao lado dele estavam outras figuras de enorme peso político, como o então presidente em exercício Geraldo Alckmin.

Nada disso significa, evidentemente, que a presença de Moraes naquela festa estabeleça qualquer relação irregular entre o ministro e João Campos. Seria irresponsável fazer essa associação sem provas. Mas política não é feita apenas de provas judiciais. É feita também de símbolos, imagens, percepções e narrativas. E é justamente aí que mora o perigo para João Campos.

A eleição pernambucana pode importar uma guerra que nasceu em Brasília. A disputa pelo Governo de Pernambuco já está apertada. A pesquisa Quaest divulgada no fim de agosto colocou Raquel Lyra na frente, com 44%, contra 36% de João Campos. Num eventual segundo turno, a vantagem também aparece para a governadora: 47% contra 37%.

Outras pesquisas recentes mostram que a disputa pode ser muito mais equilibrada, mas todas apontam para uma realidade incontestável: a eleição deixou de ser uma caminhada confortável para João Campos. É nesse cenário que o caso Moraes pode entrar na campanha. Não porque Moraes seja candidato. Não porque João Campos seja responsável pelas decisões do ministro. Mas porque a eleição será, cada vez mais, uma disputa de narrativas nacionais.

O eleitor pernambucano poderá ser chamado a escolher não apenas entre João e Raquel, mas entre diferentes visões sobre o Brasil, sobre o Supremo, sobre o governo Lula, sobre Bolsonaro, sobre democracia, liberdade de expressão e o papel das instituições. E João Campos, por sua posição política, corre o risco de ser colocado dentro desse debate nacional.

O casamento pode virar munição política?

A oposição certamente perceberá o potencial simbólico daquela fotografia de Carneiros. A pergunta que poderá aparecer nas redes sociais é simples: “De que lado João Campos está?” É uma pergunta política, não jurídica. João é presidente nacional do PSB, aliado do campo político de Lula e marido de Tabata Amaral. Moraes esteve entre os convidados de seu casamento. Para os adversários, isso pode ser transformado numa narrativa de proximidade com o establishment de Brasília.

Para os aliados de João, a resposta será igualmente simples: convidados de casamento não significam alianças políticas ou compromisso com decisões judiciais. E os dois lados, provavelmente, vão explorar essa história.

O verdadeiro problema para João

O maior risco para o candidato do PSB não é Alexandre de Moraes. É a possibilidade de a eleição pernambucana deixar de ser discutida apenas sobre Pernambuco. João Campos precisa falar de saúde, segurança, educação, estradas, água, emprego e desenvolvimento econômico. Precisa convencer o eleitor de que está preparado para governar o Estado.

Raquel Lyra, por sua vez, tem todo interesse em transformar a eleição num plebiscito sobre a administração estadual e, ao mesmo tempo, nacionalizar aquilo que puder prejudicar seu adversário. Se o caso Moraes crescer negativamente nas próximas semanas, será muito difícil impedir que ele entre na campanha. E aí estará o desafio de João: não permitir que uma crise institucional em Brasília se transforme numa crise eleitoral em Pernambuco.

A eleição ainda está aberta

É importante não cometer o erro de considerar a eleição decidida. As pesquisas mostram movimentos diferentes. Uma pesquisa recente chegou a registrar Raquel com 45% e João com 41%, enquanto levantamentos anteriores apontaram empate técnico. Portanto, ainda existe muito jogo pela frente. Mas uma coisa mudou, a eleição pernambucana ganhou temperatura nacional. E quanto mais nacionalizada ela ficar, maior será a importância de temas que estão fora dos limites do Estado. Alexandre de Moraes é um desses temas.

O ministro não estará na urna de Pernambuco. Mas sua imagem pode estar. Assim como a fotografia do casamento de João Campos. E, numa eleição tão apertada, às vezes uma fotografia vale mais politicamente do que mil discursos.

A Conexão Brasília Pernambuco quer saber: Pernambuco vai escolher seu próximo governador discutindo os problemas de Pernambuco ou será arrastado para a guerra política que está sendo travada em Brasília?


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