Por Adriano Roberto
Se existe uma ironia dramática na trajetória recente do conservadorismo brasileiro, é o fato de que a maior parte dos políticos e militantes que hoje dizem herdar o legado de Olavo de Carvalho ignorou solenemente a lição mais fundamental do seu pensamento: a política eleitoral é a última camada da mudança social, jamais a primeira.
Ao longo de décadas no Curso Online de Filosofia (COF) e em seus livros, Olavo insistiu em um diagnóstico central: a esquerda dominou o cenário brasileiro não porque venceu eleições da noite para o dia, mas porque promoveu um trabalho de base contínuo, paciente e silencioso.
Ocupou o ambiente universitário, a burocracia estatal, os conselhos de classe, a produção literária e o meio cultural. Esse método, inspirado na estratégia da conquista de hegemonia cultural de Antonio Gramsci, ensinava que, sem a formação prévia de uma elite intelectual, técnica e moral, qualquer vitória no Executivo ou no Legislativo seria um castelo de areia.
A direita brasileira, no entanto, preferiu o atalho.
Tomada pelo apressamento e pela ilusão de poder instantâneo a partir de 2018, grande parte da liderança conservadora trocou a formação intelectual de longo prazo pelo ativismo ruidoso. Trocou-se a preparação de juristas, diplomatas, professores, burocratas e gestores pela busca por engajamento em redes sociais, pela produção de memes e pelo embate direto e muitas vezes precipitado, contra o establishment e o Judiciário.
Confundiu-se a capacidade de arrastar multidões nas ruas com a capacidade de ocupação técnica das engrenagens do Estado. A consequência do atropelo foi imediata: sem quadros qualificados no interior do funcionalismo e sem o devido respaldo institucional, a reação do sistema foi devastadora, deixando o movimento exposto e isolado.
Recentemente, declarações de figuras influentes da própria direita vêm pedindo "pés no chão", moderação e o fim de confrontos diretos contra os poderes constituídos. Esse movimento de recuo e sobriedade mostra que a realidade se impôs. O problema é que isso já havia sido desenhado pelo próprio Olavo anos atrás: tentar resolver conflitos históricos "no grito" ou via rupturas sem base estrutural é uma armadilha.
Para construir uma alternativa política real e duradoura no Brasil, a direita precisará parar de instrumentalizar slogans e voltar ao dever de casa. Isso exige paciência histórica: ocupar as universidades com rigor acadêmico, formar quadros preparados para disputar concursos públicos estratégicos, investir em institutos de pesquisa e entender que o ritmo da política real é lento, burocrático e exige método.
Não quero entrar aqui no resultado de tudo que aconteceu nas apurações destas eleições, isso fica para depois que voltar das férias, mas já deu pra entender que muita coisa ruim está para acontecer e teremos que aguentar “orando e jejuando” aprendendo lições, mas sempre com muita esperança.
Mas, enquanto a direita focar apenas na próxima eleição em vez de focar nas próximas gerações, continuará tropeçando na própria ansiedade provando que esqueceu a principal lição daquele que dizia: "O poder político é apenas a espuma na superfície das ondas; quem não domina o que está embaixo, é engolido pelo mar." (Olavo de Carvalho)

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